Clarice Lispector

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quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Homenagem à pintora e poetisa Ana Luisa Kaminski

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Na Academia de Artes e Poéticas Clarice Lispector registramos hoje, dia 20 de agosto de 2008, a presença da arte e poética de Ana Luisa Kaminski. Ela é pintora, poetisa, e também uma estudiosa da obra de Clarice Lispector. Divulgar a arte de Ana Luisa aqui, na Academia de Clarice Lispector, é uma honra para a arte e a poesia, além de nossa homenagem à escritora Clarice Lispector, através da primeira parte da dissertação sobre a obra de Clarice,
Passagens e impasses clariceanos: entre a ostra e a crosta de autoria de Ana Luisa Kaminski.

Ana Luisa aniversaria na data de hoje, dia 20 de agosto. Ela é da cidade de Florianópolis - Santa Catarina.

A seguir, algumas de suas pinturas, que fazem parte de uma das coleções de sua obra.


Violoncelista Alizarin, Ana Luisa Kaminski


Mulheres musicais, Ana Luisa Kaminski


Ninfa azul, Ana Luisa Kaminski


Cabeça azul, Luisa Kaminski


Olhando para o infinito, Ana Luisa Kaminski


Poemas de Ana Luisa Kaminski, a seguir:


Cinzas & Estrelas



Chuvas cósmicas e vôos
no intra-caos abissal
cometas ariscos, poeiras
gotas, pingos, vendaval
acontecem nas manhãs
molhadas-móveis de maio
constelações, conjecturas
das mil danças, o ensaio...

Cristais, anéis, elipses
luas e espirais
galáxias fumegantes
e pérolas astrais
estrelas trituradas
fuligens, sais, vapores
lampejos, cintilâncias
memórias de amores...

Cacos de conchas, luzes
céus e pratas marinhas
águas, ritmos, rituais
incandescentes entrelinhas
encontros e correntes
colares, curvas, caracóis
no espaço livre e nebuloso
do mergulho entre - lençóis...

Cinzas de sóis e sonhos
restos, farelos, grãos
adornando pés, cabelos
pescoços, seios, mãos
na travessia da noite
brilhos, pós e pedrarias
fios de nuvens violeta
fiapos de fantasias...




Ana Luisa Kaminski, 17/05/2007




Véus, vôos e avessos


Quando amo plenamente
abro os portais da alma
sem medo de me lançar
ao alizarim, ao azul
arrisco a entrega inteira
sem temer vôos ou quedas
vislumbro o céu e o avesso
nos olhos descortinados
vejo verdes, lilases, anis
cor-de-noite, terra, gris
janelas abertas, paraísos...
Coração leve, apaixonado
livre dos véus da ilusão
avança no vazio violeta
inventa novos jardins
revive entre nuvens e luzes
ultrapassa limites, cintila
num trânsito eterno-etéreo...




Ana Luisa Kaminski, agosto/2007

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Ana Luisa por Ana Luisa Kaminski:

assimétrica, apaixonada, patética...
ambivalente combinação de ex-centricidade e con-centração...
Amo a arte da vida, a natureza, pessoas e bichos - e adoooooro pintar!!!

Visite o trabalho da artista aqui:

www.luisakaminski.nafoto.net
http://arteglobal.ning.com/profile/analuisakaminski
http://recantodasletras.uol.com.br/autor.php?id=19762
www.spaziosurreale.com.br

Orkut de Ana Luisa Kaminski:
http://www.orkut.com.br/Profile.aspx?origin=is&uid=12453921384235700144



Mundo, 20 de agosto de 2008
Ana Felix Garjan
Grupos Artforum Mundi & Artforum Brasil XXI
www.cidadeartesdomundo.com.br


A seguir, uma parte da dissertação sobre a obra de Clarice Lispector, de autoria de Ana Luisa Kaminski.



CAPÍTULO I

Passagens e impasses clariceanos: entre a ostra e a crosta
1. Passeios

. Os textos de Clarice Lispector, “objetos vivos” e inventados que tornam visível o invisível, e nos mostram outro mundo através da palavra, podem ser descritos como portas de passagem, fascinantes aberturas para o espaço clandestino do informe, do silêncio e do vazio intocável. A máquina literária clariceana, ao longo de 37 anos de produção, abriu a brecha por onde vaza esta sensação de plenitude do não-sentido, permitindo a passagem tanto de personagens quanto de leitores para uma outra realidade, existente sob a crosta do cotidiano banal. Segundo Nádia B. Gotlib, em Clarice Lispector o exercício da linguagem funciona como exercício de “nomear o não-nomeável”, instrumento de “tocar no ponto que não é tocável”, de se atingir o segredo, desenterrando “o pior e o melhor de nossa condição humana, que já não é nem mais humana”, “é condição da espécie animal, sobretudo vital”.
Percebe-se nas obras clariceanas, conforme observa Benedito Nunes, a tentativa de “dizer a coisa sem nome, descortinada no instante do êxtase, e que se entremostra no silêncio intervalar das palavras” •: o sentido do real só é atingido quando a linguagem fracassa em dizê-lo. Desse processo da linguagem, presente desde a publicação do primeiro romance de Clarice Lispector, Perto do Coração Selvagem (1944), e que culmina com Paixão Segundo GH (1964), resulta a “ficção erradia”, uma “escrita de fascinação” que acontece sob a “perspectiva da introspecção” . Além disso, a escritura clariceana ultrapassa e delimita as fronteiras de gênero, deixando circular seus produtos textuais pelos espaços do romance, da prosa poética ou da crônica, sendo preferível chamá-los de “ficções ou pulsações”. Esta escritura transgressora e desviante desova objetos vivos e abre uma clareira (zona neutra ) para a invenção de si, a partir do mergulho do ser numa realidade diferente da sua vida diária banal, depois do qual acontece uma volta ao curso normal da existência. A personagem volta ao trivial, porém, já transformada pela vivência paradoxal de ter adentrado esta “zona extraordinária em que se experimenta uma verdade pelo deslocamento do cotidiano” – o que provoca a abertura de frestas - sendo exatamente isto o que intenta a “experiência de risco da linguagem” de Clarice Lispector, diz Nádia Gotlib.
Esta análise tenta revelar como esta experiência de saída do cotidiano banal (que provoca uma interrupção na rotina repetitiva das personagens) relaciona-se diretamente com a questão da automatização humana no mundo moderno e maquinizado, abordada com freqüência nos textos clariceanos. Estes nos desafiam a arriscar uma mudança, a encontrar desvios que nos retirem da rota óbvia, automática e infalível. Ou seja, tematizando sobre a automatização e revelando certa rigidez na rotina do ser humano moderno, as ficções de Clarice Lispector provocam reflexões e rachaduras na crosta do pensamento massificado.
É este o caso do conto “Amor” (publicado em 1952 em Alguns Contos, e republicado em 1960, fazendo parte do livro Laços de Família ), texto onde acontece um desvio de percurso que afeta a vida da protagonista e abre uma fenda no seu dia-a-dia banal e domesticado, fazendo vazar a matéria nauseante do inumano e provocando as sensações conflituosas do ser, entre fascínio e horror, diante do mistério do amor, da vida, da morte e do vazio . Descrevendo o desvio de rota de uma dona-de-casa, a partir de um acontecimento que interrompe o fluxo ou a linha contínua do seu cotidiano ordenado, Clarice Lispector usa a palavra para construir a “porta de passagem” que possibilita à personagem a saída do seu mundo habitual, o seu encontro com o vazio e a comunhão com a coisa “puramente viva”. Através da linguagem acontece o mergulho, a viagem de ida e de volta – podendo acontecer também, após a experiência de risco da leitura do texto, que coloca em discussão certos aspectos da rotina repetitiva do cotidiano moderno, uma transformação na vida da personagem, o que afeta a leitura como se fosse o próprio percurso do leitor no mundo massificado.
O título do conto, “Amor”, desperta interrogações quanto ao sentido desta palavra dentro do texto, funcionando como seta que aponta para certa direção . Faz acreditar, desde o início da leitura, que o sentimento de amor terá importância dentro desta narrativa, a qual descreve uma passagem na vida de Ana, uma mulher aparentemente satisfeita com sua rotina doméstica, tranqüila e ordenada. No entanto, logo de saída, também deparamos com o seu cansaço, na cena inicial do conto, quando ela sobe no bonde, carregando compras no seu novo saco de tricô: “Um pouco cansada”, senta procurando conforto. Enquanto o bonde viaja, nós começamos a conhecer o seu dia-a-dia: Ana tinha filhos bons, uma cozinha grande com um fogão que dava estouros, um marido que chegava em casa carregando jornais e sorrindo de fome... Descobrimos ainda que ela tentava tornar seus dias “realizados e belos”, suplantando a “íntima desordem” e emprestando a cada coisa uma “aparência harmoniosa”. Ou seja, era uma pessoa que acreditava ser feliz (ou, ao menos, que tinha sido condicionada a crer que aquilo era a “felicidade”), que lançara suas sementes e via-as crescendo, que caíra “num destino de mulher, com a surpresa de nele caber como se o tivesse inventado”.
Porém, se a vida cotidiana de Ana parecia satisfatória e tranqüila, também possuía uma face oculta, perturbadora e díspar: havia a “hora perigosa da tarde”, quando as coisas não precisavam mais de sua força, e ela “inquietava-se”. Qual seria o perigo? Ao que parece, este tinha a ver com o ócio daquele momento, em que Ana já havia cumprido com seus deveres, e a casa (limpa) ficava vazia e silenciosa. É quando o silêncio, o ócio e o vazio fazem-na pensar na própria vida, no próprio percurso, nas próprias escolhas, que começa o seu mergulho... Ela lembra de uma “exaltação perturbada” da juventude, que tantas vezes confundira com “felicidade insuportável” e que trocara por uma “vida de adulto”, ao descobrir que “também sem felicidade se vivia”. Percebemos, aos poucos, que a protagonista de “Amor” construiu uma casca: um escudo protetor para precaver-se contra a sensação insuportável de viver num mundo imprevisível, de verdades terríveis ou perturbadoras que ela prefere esquecer. Por isto, tenta suplantar a íntima desordem, disciplinando a própria rotina, evitando a solidão da casa vazia na hora perigosa da tarde, e saindo para fazer compras: foge de si mesma, da própria inquietação?...

Sua precaução reduzia-se a tomar cuidado na hora perigosa da tarde, quando a casa estava vazia sem precisar mais dela, o sol alto, cada membro da família distribuído nas suas funções. Olhando os móveis limpos, seu coração se apertava um pouco em espanto. Mas na sua vida não havia lugar para que sentisse ternura pelo seu espanto ela o abafava com a mesma habilidade que as lides de casa lhe haviam transmitido. Saía então para fazer compras ou levar objetos para consertar, cuidando do lar e da família à revelia deles. Quando voltasse era o fim da tarde e as crianças vindas do colégio exigiam-na. Assim chegaria a noite, com sua tranqüila vibração. De manhã acordaria aureolada pelos calmos deveres. Encontrava os móveis de novo empoeirados e sujos, como se voltassem arrependidos. Quanto a ela mesma, fazia obscuramente parte das raízes negras e suaves do mundo. E alimentava anonimamente a vida. Estava bom assim. Assim ela o quisera e escolhera.

Apesar de se sentir viva no seu mundo “sumarento” e confortável, Ana procura planejar seus passos, proteger-se, pois teme algo desconhecido: algo latente dentro de si mesma, algo assustador, temível e ameaçador no mundo de raízes negras e suaves do qual sabe fazer parte... Ela parece ter certa consciência da própria atitude, e saber, no fundo, que está se resguardando, evitando alguma verdade – prefere, porém, manter-se presa na sua vida de hábitos mornos e repetitivos, na ilusão de sua rotina tranqüila que lhe proporciona relativa segurança...Algo similar acontece com a protagonista do conto “Os Laços de Família”, Catarina, uma mulher que aprisionou e domesticou os afetos, ao ponto de só conseguir “rir pelos olhos”, contida. Esta outra personagem clariceana, como a protagonista de “Amor”, pressente o perigo da emoção que quer aflorar no seu íntimo, uma alegria ou loucura quase indomesticável: “Se eu rio, eles pensam que sou louca”. Catarina também enfrenta um acontecimento que coloca em risco a paz aparente de sua rotina diária, e a faz despertar para outra realidade, muitas vezes reprimida. Ambas passam por experiências que as arrancam da monotonia do seu cotidiano domesticado, forçando-as a um confronto com certas verdades quase esquecidas ou evitadas.

Nestes dois contos de Laços de Família percebemos certas tendências experimentadas por Clarice Lispector ao longo de sua obra: de um lado, o tema da relação entre os seres, e de outro, uma estrutura narrativa em que o processo de auto-conhecimento se desenvolve gradativamente, por etapas bem definidas. Interessa-nos observar como este encontro do ser com o outro, com sua humanidade, e, além disso, com sua animalidade orgânica (a própria essência vital), após a saída do dia-a-dia domesticado, produz uma fissura no ser endurecido pela rotina da vida automatizada Em outras palavras, tentamos encontrar em “Amor” vestígios da proposta clariceana que está por trás destes encontros com o outro (que acontecem em vários de seus textos): um confronto que faz refletir sobre a automatização humana e abre o pensamento padronizado contemporâneo para outras visões, alternativas e possibilidades...


2. Encontros e rupturas

Em “Amor”, viajamos com Ana no bonde que vacila nos trilhos, na hora perigosa da tarde. “O bonde vacilava nos trilhos” •: imagem sugestiva, que alude à instabilidade da ordem forjada na vida desta mulher que teme o imprevisto, o feio, o vazio. O bonde que vacila nos trilhos faz pensar na possibilidade de uma catástrofe , de um imprevisível acidente de percurso que retire a personagem de sua rota óbvia e infalível. Esta frase soa como um agouro , um presságio de que algo está para acontecer, justamente nos últimos instantes da “hora perigosa e instável” da tarde. É neste momento que Ana vê o homem cego parado no ponto, e este encontro inusitado, que é também acaso e fortuna , provoca o acontecimento na vida tranqüila da mulher: ela tem um sobressalto, seu coração bate acelerado e violento.
“Alguma coisa intranqüila estava sucedendo”.

Aqui, a expressão coisa intranqüila ganha uma força, é pura potência da linguagem, a palavra exercendo seu poder de abertura de frestas, brechas, clareiras. Alguma coisa intranqüila sucede na vida calma e previsível de Ana, ao ver o cego que masca chiclete (e que parece rir dela?... Como as coisas pareciam rir na casa limpa, silenciosa e vazia?...). O cego não a vê, como as coisas, as árvores, os móveis ... Mas ela o vê e olha-o “profundamente, como se olha o que não nos vê” Olhando-o profundamente, parece descobrir algum segredo sob a superfície do banal, um mistério... A imagem provocativa do cego mascando goma “na escuridão” coloca-a em contato com o lado obscuro e grotesco da vida, por ela evitado, e este encontro-confronto-choque racha sua crosta. É o momento da catástrofe, quando o bonde dá uma “arrancada súbita” e joga Ana para trás, fazendo com que ela deixe cair no chão seu saco de tricô, o embrulho com os ovos... Algo acontece, a casca se quebra, o fio se parte... A linearidade da vida automática de Ana é interrompida. Neste ponto, tomemos emprestadas estas palavras de Raúl Antelo: “Mesmo quando o acontecimento é um entrave ou um obstáculo poderá, no entanto, conceder a felicidade de ultrapassar o óbvio e encontrar uma saída.”
Note-se que no conto “Os Laços de Família” a personagem Catarina também está em trânsito, usando um meio de transporte (um táxi) no momento do choque que provoca sua mudança de atitude: uma freada súbita do carro causa o acidente, o encontro imprevisto entre mãe e filha:

“... uma freada súbita do carro lançou-as uma contra a outra e fez despencarem as malas. Ah! ah!, exclamou a mãe como a um desastre irremediável...”
Catarina olhava a mãe, e a mãe olhava a filha, e também a Catarina acontecera um desastre? Seus olhos piscaram surpreendidos, ela ajeitava depressa as malas, a bolsa, procurando o mais rapidamente possível remediar a catástrofe. Porque de fato sucedera alguma coisa, seria inútil esconder: Catarina fora lançada contra Severina, numa intimidade de corpo há muito esquecida...

Tanto em “Amor” quanto em “Os Laços de Família” o choque acontece a partir de situações corriqueiras do cotidiano: o bonde que arranca subitamente, o táxi que dá uma freada... No entanto, a micro-catástrofe que sucede a estas personagens tem particular importância: é o momento da mudança de rumo, do desvio, em que elas encontram justamente aquilo do qual estavam tentando escapar, a verdade escondida... Ana vê o cego, Catarina encontra o corpo da velha mãe... E mais o quê?... A arrancada (súbita) do bonde e a freada (súbita) do táxi despertam-nas para a fatalidade da vida que pulsa dentro de si e no mundo ao redor (assustador e palpitante), rompendo sua crosta, expondo-as ao perigo. Desastre, desvio, despertar...
Nas duas narrativas, as mulheres deixam cair algo no chão no momento do impacto: em “Amor”, Ana deixa cair o embrulho com os ovos, e em “Os Laços de Família”, caem as malas da mãe... (e ainda o chapéu da velha, quando parte o trem, depois da despedida de mãe e filha na estação ). A queda destes objetos (ovos, malas, chapéu) que lembram invólucros (os quais precisam ser partidos para que a matéria viva vaze) é significativa: podemos pensar na própria casca das personagens, rachada no momento do impacto, do susto, do desvio. Nestes extravios, há perda e ganho: perde-se parte da (aparente) segurança, se ganha outra e nova visão das coisas (e da vida)... Extravio: extra-via, desvio, via que ultrapassa o óbvio... Ana redescobre a piedade a partir do encontro com o cego, enquanto Catarina reencontra a intimidade perdida com a velha mãe. Depois do susto, a partir deste instante de comunhão com o outro, surge nas personagens a estranha sensação de esquecimento:
O mal estava feito. Por quê? Teria esquecido de que havia cegos?

Não esqueci de nada? perguntou a mãe...............Também a Catarina parecia que haviam esquecido de alguma coisa, e ambas se olhavam atônitas.

A sensação de esquecimento ou vertigem do vazio redesperta as personagens para o mal-estar da vida que parece vazar através da casca fendida, depois que a ordem infalível do cotidiano automatizado é interrompida: “Vários anos ruíam, as gemas amarelas escorriam.” No instante do desastre, do desvio e do esquecimento (abandono, desordem íntima, loucura) a casca se quebra e a gema escorre pela fenda do eu cindido. Isto evoca idéias de Julia Kristeva sobre a “dissociação das formas”: “a forma se de-forma, se abstrai, se desfigura, vaza: últimos limiares do deslocamento e do gozo indescritível”.

Em “Amor” as imagens do cego e dos ovos quebrados são decisivas, provocativas e prenhes de sentido: o homem cego é também o objeto que causa o desvio de curso na vida ordenada da mulher – e pode ser visto como uma porta, passagem, brecha, meio e mediador , já que permite o atravessamento para um outro mundo, o encontro de uma outra realidade (como a barata-porta em Paixão Segundo GH ). A imagem ambivalente do cego (mediador e marginal) tateando com as mãos inseguras, tentando inutilmente pegar o que acontece ao redor, deixa suas marcas em Ana e ao longo do texto, provocando o mal-estar (entre dor e prazer) diante da ruptura da rede de sentido: “o mal já estava feito”, e “estar num bonde era um fio partido” . Sufocada pela piedade e atemorizada diante do mundo, já então “mais hostil e perecível”, Ana percebe de súbito que as “pessoas periclitantes” podem ser felizes, apesar da falta de lei ou de sentido. Quando a “crise” começa, depois do desastre, ela pressente também o prazer possível: “... o prazer intenso com que olhava agora as coisas, sofrendo espantada”. “Mais tarde, em Paixão Segundo GH, Clarice Lispector escreve:”: “Como cegos que tateiam, nós pressentimos”... “o núcleo da vida...”... “... e o intenso prazer de viver”.

O próprio cego mascando chiclete – objeto vivo e abjeto - que provoca o estranhamento e o acontecimento (o acidente de percurso, o desvio de rota e a ruptura: por causa dele os ovos se quebram e as gemas escorrem entre os fios da rede) pode, portanto, ser visto também como um ovo, a coisa que provoca a transformação, revelando verdades (esquecidas) e um mundo (n) ovo, mais vivo e palpitante, embora menos tranqüilo. Ovo grotesco e informe, o cego aponta para o não-lugar da falta, do vazio, do esquecimento . Mascando chiclete no escuro, sem sofrimento, o cego-ovo pode ser também a chave que abre a porta para o espaço neutro do silêncio e do sem-sentido , a brecha que prolifera o diferencial e que lança ao abismo das incertezas, ao espaço vazio da “ausência de certezas” evocado através da linguagem ficcional, que “provém do silêncio e ao silêncio retorna.
O cego-ovo de “Amor” é um exemplar de objeto vivo ficcional, o qual desova mais significante a cada nova tentativa de limitar sentidos. É, além disso, uma espécie de espelho: a visada dos seus olhos (ovos) cegos devolve para Ana uma nova visão de si e abre uma fenda, um interstício, uma passagem para a diferença, mergulhando o mundo em “escura sofreguidão” (imagem que evoca a zona neutra e vazia de certezas).“Algo que estava no fundo informe vaza, subindo à superfície, as formas se decompõe e repartem o eu passivo, em torno deste ponto de a-fundamento ”. Podemos ligar este “vazamento” à irrupção da “desordem íntima” reprimida pela personagem – que vaza também na imagem dos ovos quebrados. Em “Os Laços de Família”, a velha mãe é a mediadora, o espelho que permite à protagonista a mirada de si e do outro. Através da mãe, Catarina vê algo invisível, assustador e ao mesmo tempo fascinante, a Coisa indescritível.

Os seres marginais (como o cego, a velha e os animais ) surgem nos textos para provocar o estranhamento e conduzir a personagem semi-robotizada ao mergulho no mundo nauseante do amor, da compaixão e da comunhão com o outro. São imagens que circulam dentro dos textos como objetos vivos, abrindo passagens e revelando a possibilidade sempre presente de uma explosão de sentido, justamente a partir de um momento vazio (a hora perigosa entre o nada-a-fazer e o tudo-a-fazer), quando a ordem do cotidiano banal é interrompida, a casca se quebra e a gema (geléia ou lama viva, desordem íntima, loucura) escorre. Percebemos, portanto, já nestes contos, a abordagem de uma temática que será aprofundada por Clarice Lispector ao longo dos anos seguintes, especialmente em textos como Água Viva, onde é retomada com força a questão da automatização e da coisificação do sujeito, bem como a da potência da linguagem.



3. Explosões

O cego que nos conduz ao ovo, ou vice-versa (ovo que remete à gema, a qual lembra a viscosidade da goma mascada pelo cego, que nos conduz à ostra, e assim por diante) nos faz pensar no próprio objeto vivo que é o ovo-texto de Clarice, desovando novas visões sobre si mesmo e fazendo explodir pura matéria mole e viva. Como a goma ou a gema, a desordem íntima vaza, viscosa, através das fissuras abertas pela palavra, escapa e escorre pelas fendas do texto entre o pleno e o vazio de sentido da linguagem, lembrando as observações de Kristeva sobre a dissociação e o vazamento das formas que acontece na criação literária, produtora de símbolos. Clarice Lispector afirma que “O ovo é a coisa mais nua que existe” . Óbvio ou obtuso, o ovo é o objeto visado e fugidio que reaparece em muitos dos seus textos, como no conto “A Galinha” ou em “O ovo e a galinha” , entre outros. Em Água Viva, lemos que “O instante é o vasto ovo de vísceras mornas”.

Segundo Sandra Hahn, o “ovo-texto pode ser fraturado, pois que é deste modo indireto que se pode entender ao ovo”. Assim é que Ana, protagonista de “Amor”, também precisa quebrar a casca da auto-proteção ou explodir sua crosta para se desnudar e transformar-se em outro-eu mais humilde, menos seguro, porém mais úmido e vibrante. O ovo quebrado que deixa vazar seu conteúdo vivo, viscoso e abjeto é ao mesmo tempo imagem mole e dura (como o cego) que avisa sobre a violência da vida, sobre a vertigem do vazio ou sobre a doce náusea do amor e da piedade. Depois do encontro com o cego que faz rachar o invólucro, Ana cai “numa bondade extremamente dolorosa” e sente que algo explodiu dentro de si: “Ela apaziguara tão bem a vida, cuidara tanto para que esta não explodisse.”...... “E um cego mascando goma despedaçava tudo isso.”... “... através da piedade aparecia a Ana uma vida cheia de náusea doce, até a boca.”

O despedaçamento da ordem da vida apaziguada, quando a casca é cindida, deixa o indivíduo novamente exposto , em contato com uma parte de si e do outro que tentava esconder e evitar, o que é metaforizado pela imagem dos ovos quebrados (casulos partidos). A partir desta explosão imprevista, ressurge o sentimento, a emoção, a doce náusea do amor e acontece uma redescoberta de si: o estranho é reconhecido como há muito familiar . A catástrofe que sucede com Ana, quando cai dentro do bonde que arranca (e depois “se sacode nos trilhos” ) em “Amor”, é um momento simbólico que marca a interrupção na linearidade de sua vida tranqüila: após o acidente e a queda do pacote com as compras, as gemas escorrem, “manchando o embrulho de jornal” que envolve os ovos . Este embrulho lembra outra casca, que protege e aprisiona a vida domesticada: os acontecimentos mundanos (lembrados pelo jornal) guardam o ovo e ocultam a gema viva da desordem íntima (metaforizada por meio das gemas moles e das manchas, que sugerem o informe, o impuro e o abjeto). Lembre-se aqui que o marido de Ana chegava em casa carregando jornais, para garantir sua ligação com o mundo exterior ao doméstico, situando-se no tempo e no espaço, e mantendo sua ilusão de ordem.
O jornal do embrulho com texto preto-e-branco (trivial) é manchado pelas gemas amarelas que vazam através das frestas: alegoria que lembra como o pulsar da vida interior afeta a exterior, dando-lhe mais cor e vibração, introduzindo o imputo, o informe, o díspar. A desordem íntima, vazando, coloca em risco a ordem forjada do cotidiano, fazendo reconhecer o estranho, oculto sob o banal, “o estranho que se movimenta nas banalidades” . Depois do desastre nada mais é igual, o mundo parece outro, diferente: os fatos corriqueiros revelam novas cores e sentidos. Neste, como em outros textos, a imagem neutra e prenhe do ovo (coisa entre ser vivo e objeto inerte), ao rejeitar a idéia de uma unidade original e ao abrir-se para uma profusão de sentidos possíveis, anuncia múltiplas possibilidades de articulação de verdades sobre si e sobre a própria vida. Ana Luiza Andrade observa que
O ovo traduz a esquizofrenia do corpo em sua potencial extração de corpos em gestação. Mas se o ovo genérico se reproduz em sua equivalência, ele se representa como a moeda, enquanto padrão de série, porém singular em seu devir. Ele é produção e produto, serial e singular, ficcional e verdadeiro

Afirma ainda que o fascínio exercido pela ambivalência do ovo produz séries modernas, entre as quais o ovo marginal de Leminsky, o ovomobile de Dalí, o ovo-projétil de João Cabral, o ovo cósmico de Osman Lins... Lembremos também do ovo-Urutu de Tarsila ou do ovo-número de Borges, resgatados por Raúl Antelo , e do ovo-relógio de Murilo Mendes (que nos faz pensar no pulsar orgânico), entre outros, como exemplos de desdobramentos possíveis da imagem do ovo-germen, uno e múltiplo, mundano e mágico. Arrisco sugerir que o bonde e o táxi que transportam Ana e Catarina (e o trem que leva a velha mãe) também são espécies de ovos, como o são os textos literários: as ficções são naves que nos conduzem em infinitas viagens, meios de transporte e de transmissão de sentidos e idéias.

No ovo-texto “Amor” o embrulho de papel-jornal frágil, sujo de ovos, e as gemas viscosas que pingam entre os fios da rede são imagens que alegorizam o ressurgimento da vida que estava guardada dentro da casca, no fundo de Ana, e anunciam a emergência do perigo (perdição e salvação) para seu ser semi-ressecado. Sabemos que ela reprimiu sua (incômoda) “exultação juvenil” em troca de uma vida tranqüila, segura e controlada. Porém, após o desvio na sua trajetória (que acontece primeiro no seu interior, ao avistar o cego: uma mudança de atitude e de sentimentos – e depois na rota exterior, quando esquece de descer no ponto usual), nada é igual a antes do acontecimento: Ana redescobre o prazer de existir. Neste ponto, como acontece em outros contos que fazem parte do livro Laços de Família, podemos perceber o que Paulo Rónai descreve como uma experiência peculiar de decisão: “o instante decisivo em que uma pessoa muda de atitude em relação a toda a existência”. O momento de decisão, segundo Raúl Antelo, é “um instante de peculiar loucura” em que o ser se encontra num “entre-lugar de forças enfrentadas.”
Este momento decisivo é enfrentado pelas personagens clariceanas, quando vacilam na encruzilhada e experimentam a vertigem do vazio... (no desvio ou extra-vio – que simultaneamente as afasta de suas rotas óbvias e as aproxima do fundo sem-fundo de si mesmas). Momento de decisão e de ruptura, de desconcerto e de loucura que desestabilliza a ordem forjada das vidas domesticadas, trazendo à tona outra realidade, menos tranqüila e ordenada, mais áspera, abjeta e vital.

Roberto C. dos Santos, comentando a constelação de contos que fazem parte do espaço de Laços, descreve este livro como uma cartografia de estados, sensações e descobertas, e afirma que nestas narrativas “a potência das paixões externaliza-se, arrebata, explode. Forma um território selvagem, que a mão do homem é incapaz de domesticar”.
Esta explosão da potência das paixões acontece no texto “Amor”, e começa a partir do encontro de Ana com o cego, que desperta a sua piedade, seu desejo e o mal-estar diante da violência da vida redescoberta. A catástrofe acontece quando a personagem confronta-se com o grotesco, o impuro, o potencial repugnante da vida orgânica, percebido na imagem dos olhos do cego e dos ovos quebrados, lembrando do vazio e o pleno de sentido, a iminência da morte. Vendo o cego (ovo que não a via) e as gemas viscosas que escorriam, as pessoas vigorosas e periclitantes, Ana se assusta e é seduzida pela vida que lateja sob a superfície do cotidiano banal, devora e é devorada: redescobre-se como ovo. Note-se ainda que os próprios títulos dos textos – “Amor”, Os Laços de Família, Paixão Segundo GH – fazem explodir sentidos, a partir da potência ambivalente da palavra e da linguagem.



4. Ultrapassagens

No instante em que Ana sente renascer em si a náusea doce do amor e da piedade, percebe que passou do seu ponto habitual de descida (ultrapassou o óbvio) e salta assustada do bonde, segurando a rede suja de ovo . Ana envereda por uma nova via, acontece o extravio: ela perde seu rumo reto, mas ganha outra visão – sentimento que é aprofundado na cena seguinte do conto, quando descobre a vida exuberante do Jardim Botânico. O susto e o salto também simbolizam uma passagem, a mudança de um estado a outro. Ana salta do bonde para uma outra realidade, diversa da habitual, avança pelo desvio, sendo que aqui o involuntário, o imprevisto, o acaso, é, ao mesmo tempo, fortuna: ela é conduzida a caminho de uma mudança que será, enfim, positiva. A “rede suja de ovo” que segura entre as mãos remete ao seu contato com o impuro, com o abjeto, com o informe, com a matéria viva que vazou através do eu fendido e vulnerável.

Ana salta numa “rua comprida, com muros altos, amarelos” e, ao perceber onde está, atravessa os “portões do Jardim”: outras alegorias para seu ritual de passagem, de transformação (cuja primeira porta foi o cego). Senta-se no banco de um atalho: sai da alameda central, desvia-se da rota principal, arrisca um caminho diferente e alternativo. Ali descansa e parece passar por um processo de crisálida: “A vastidão parecia acalmá-la, o silêncio regulava a sua respiração. Ela adormecia dentro de si.” Neste ponto de pausa, parece que a personagem recupera a tranqüilidade, reencontra a paz e a ordem que havia sido abalada. No entanto, este momento antecede um aprofundamento do seu mergulho interior.
Sentada na penumbra, a personagem parece preparar-se para um renascimento: ouvindo os ruídos do Jardim, sentindo o cheiro das árvores, como se estivesse num “meio sonho”, rodeada por “um zunido de abelhas e aves”, ela redesperta para a vida, percebendo que “Tudo era estranho, suave demais, grande demais”. Ana descobre uma “face oculta da vida”, a partir do despertar da “paixão”, que funciona “a contrapelo do hábito que insensibiliza”. O que começou a suceder com ela antes, a partir do encontro com o cego, continua acontecendo quando entra em comunhão com o puramente vivo e redescobre o fascínio e a náusea provocados pelo confronto com a riqueza da vida orgânica e a realidade da morte presentes na natureza exuberante do Jardim. Isto reativa o seu mal-estar :

E de repente, com mal-estar, pareceu-lhe ter caído numa emboscada. Fazia-se no Jardim um trabalho secreto do qual ela começava a se aperceber. ” ... “Como a repulsa que precedesse uma entrega – era fascinante, a mulher tinha nojo, e era fascinante.

Neste espaço diferente do doméstico, um mundo “faiscante e sombrio”, “tão rico que apodrecia”, onde “a decomposição era profunda e perfumada” , Ana sente a náusea ambivalente, diante da potência da vida e da morte: “uma forma extrema de repugnância do mundo” , provocada pela experiência de mergulho em outra realidade e pela comunhão da personagem com as próprias raízes . A náusea é, portanto, o sinal do encontro com o inumano, com o vazio e pleno de sentido, e liga-se, ainda, ao autodilaceramento do ser-linguagem e à tentativa humana de dizer o indizível, tocar no intocável, ultrapassar o possível. Na narrativa “Amor”, como em outros textos clariceanos que abrem clareiras e espaços, descobrindo desvios, percebemos esta tentativa de ultrapassar os limites, transformá-los em limiares e inventar o possível por meio da ficção.
O espaço mágico do Jardim, onde rumorejam as águas , reaparece em Água Viva (1973), a partir de um mergulho que acontece através da escrita:

Neste instante-já estou envolvida por um vagueante desejo difuso de maravilhamento e milhares de reflexos do sol na água que corre da bica na relva de um jardim todo maduro de perfumes, jardim de sombras que invento já e agora e que são o meio concreto de falar neste meu instante de vida.

É neste jardim inventado, em que a narradora fica dormitando “no calor estivo do Domingo”, rodeada por “zumbidos de abelhas e vespas” (e que lembra o momento de crisálida de Ana, em “Amor”), que acontece sua passagem para o “outro lado da vida”, a ultrapassagem das fronteiras. Escrevendo distraidamente, “como se estivesse entre o sono e a vigília” , é através de uma “verdade inventada”, por meio da linguagem, que esta voz redescobre suas “profundezas, raízes, tentáculos, serpentes, desejos”. A voz que fala de “raízes” e de “frutas maduras” , em Água Viva, remete-nos à cena de “Amor”, em que Ana encontra-se diante das árvores carregadas de “frutas pretas e doces como mel”, lembrando que existem pessoas com fome ... e vendo “todas as pesadas coisas” ... “com a cabeça rodeada por um enxame de insetos enviados pela vida mais fina do mundo”.
Ana sente nojo e fascínio pelo mundo redescoberto no Inferno-Paraíso do Jardim, e a voz de Água Viva mergulha na “quase dor de uma intensa alegria” ao reconhecer que “é orgânica”. Podemos perceber na confluência destes textos, que criam mundos imaginários e palpitantes, a tendência clariceana de tentar captar o instante, o “fluir do próprio discurso”, através da linguagem, também transformada em matéria, em gema, em “substância viva”. A ficção de Clarice Lispector também flui, assim, como a água viva que corre nos seus Jardins inventados, evocando o indizível e despertando sensações de mal ou bem-estar, quando a própria náusea é experimentada como “pulsação, puro devir”. Além disso, fica clara a intenção da autora de tocar no intocável dos seres automatizados modernos, de abrir uma brecha no seu cotidiano banal, rachar a sua crosta e fazer vazar o informe, o reprimido e o abjeto através do mundo mágico das palavras.

5. Entradas e saídas

“Era quase noite”, e tudo parecia “cheio e pesado”, quando Ana lembra das crianças e sente-se culpada. Outro susto, antes de voltar para casa, para o mundo doméstico e ordenado. Ela quase corre, avança pelo atalho obscuro, sacode os portões fechados até o vigia aparecer. A saída do Jardim é outra passagem – dolorosa e prazerosa pela redescoberta que fizera: “... o mundo lhe parecia seu, sujo, perecível, seu.” A partir daí acontece uma sucessão de atravessamentos: ela chega à porta do edifício, parecendo “à beira de um desastre” , corre até o elevador, abre a porta da casa... Como se estivesse passando por um labirinto, procurando uma saída – ou entrada – para seu mundo conhecido e habitual, familiar, que, ironicamente, lhe parece estranho após a experiência que vivera na “hora perigosa da tarde”. Este é o momento em que a personagem volta ao seu mundo trivial, porém já transformada pela experiência de uma saída dos trilhos, da linearidade, da ordem habitual das coisas – e, portanto, apta para questionar a própria rotina repetitiva que a maquiniza:
Abriu a porta de casa. A sala era grande, quadrada, as maçanetas brilhavam limpas, os vidros da janela brilhavam, a lâmpada brilhava – que nova terra era essa? E por um instante a vida sadia que levara até agora pareceu-lhe um modo moralmente louco de viver.

Após este instante de estranhamento, Ana vê seu filho, e aperta-o tentando protegê-lo, pois descobrira que “a vida era periclitante”. Ela está consciente de que ama o mundo – ama-o com nojo – de modo similar ao que sente Catarina, na sua volta para casa:

No meio da fumaça, Catarina começou a caminhar de volta, as sobrancelhas franzidas, e nos olhos a malícia dos estrábicos. ...E de tal modo haviam-se disposto as coisas que o amor doloroso lhe pareceu a felicidade – tudo estava tão vivo e tenro ao redor, a rua suja, os velhos bondes, cascas de laranja – a força fluía e refluía no seu coração com pesada riqueza.

Através dos olhos vesgos de Catarina vaza o seu amor pelo mundo, o seu “prazer ainda úmido de lágrimas pela mãe”. Neste percurso de volta, também acontecem várias passagens e atravessamentos: ela desvia-se dos carros, burla a fila do ônibus, sobe pelo elevador, abre a porta do apartamento enquanto se liberta do chapéu com a outra mão , parecendo “disposta a usufruir da largueza do mundo inteiro, caminho aberto pela sua mãe que lhe ardia no peito.” Como Ana, Catarina volta para casa modificada, afetada pela redescoberta do mundo sujo e periclitante, mais viva após o acontecimento que rachou sua crosta e redespertou-a para a emoção de existir.
Ao chegar em casa na tarde de sábado (outra hora perigosa, em que o ócio torna possível uma saída da rotina habitual) Catarina encontra o marido, que mal levanta os olhos do livro (outros olhos que não vêem ?...), e vai até o quarto do filho (mais uma porta) . O menino distraído, de olhar indiferente, como o cego, também parece funcionar como mediador, permitindo a passagem para um outro mundo, a descoberta de algum segredo ou mistério escondido. O encontro de Catarina com o filho, como o de Ana com o cego, reativa e aprofunda seus afetos. Após ouvir o filho dizendo: mamãe! pergunta-se a quem poderia contar o que sucedera, sabendo que seria difícil fazer alguém entender o que ela não sabia explicar. Catarina pensa em recriar o fato: “Talvez pudesse contar, se mudasse a forma. Contaria que o filho dissera: mamãe, quem é Deus?. Talvez. Só em símbolos a verdade caberia...” (Na verdade inventada de Água Viva, texto em que se percebe com clareza a potência criadora da linguagem, a voz diz: “O que te falo nunca é o que eu te falo, e sim outra coisa. ) Depois, no momento em que Catarina ri de sua “mentira necessária” - quando ri para o menino, “não só com os olhos”, mas de corpo inteiro - a crosta se rompe e emerge o mistério dos laços: “ o corpo todo riu quebrado, quebrado um invólucro, e uma aspereza aparecendo como uma rouquidão. Feia, disse então o menino, examinando-a.”
No conto “Amor”, quando Ana volta para casa e abraça o filho com força, ele se assusta com a expressão e as palavras estranhas da mãe, e ela recebe então da criança “o pior olhar que jamais recebera”, sentindo o sangue subir-lhe ao rosto. As reações dos filhos em relação à atitude das mães, nestes dois textos, nos fazem perceber que neste momento peculiar de aproximação algo de estranho vaza através dos olhos (ovos) das mulheres, já transformadas pelas vivências anteriores (Ana, pelo encontro com o cego e com a natureza no Jardim, e Catarina pelo encontro inesperado com a velha mãe e com o filho inocente). Vaza pelos seus olhos e pelo invólucro partido algo que assusta, uma aspereza que é também viscosidade, desordem íntima, loucura. Se em “Amor” o menino se assusta e a mãe ruboriza, em “Os Laços de Família” o filho desperta para uma relação mais feliz com Catarina (que também cora), compartilhando do mistério de sua alegria recém-descoberta – depois do que acontece a saída de ambos para um passeio na praia, sob os protestos do pai, que se sente inseguro diante da atitude inusitada da mulher. Ana volta ao lar e reencontra sua amada família, Catarina volta para casa e torna a sair do apartamento, levando o filho para passear... Nestes, como em outros contos clariceanos, ou romances, ou crônicas, ou apenas ficções, acontece a saída para o extraordinário, a abertura de frestas, o encontro de um novo espaço, a transgressão, a ultrapassagem dos limites do cotidiano domesticado do ser humano moderno.


6. A matéria viva vaza

A coletânea de contos de Laços de Família apareceu numa situação de grande desenvolvimento industrial, com sua temática girando em torno da “prisão” doméstica dos ritos familiares e do convencionalismo social . As narrativas apresentavam “o horizonte inquieto da mulher citadina, que já não mais se conformava com o tradicional limiar da copa e cozinha.” É neste contexto que podemos entender as protagonistas de “Amor” e “Os Laços de Família”, Ana e Catarina: elas são personagens típicas de uma época em que as famílias viviam com conforto e relativa segurança nos seu lares equipados com apetrechos modernos, nos seus prédios de apartamentos, subindo e descendo nos elevadores que as transportavam para o interior e para o exterior de seus mundos quadrados, assépticos e ordenados. No entanto, percebe-se sutilmente a insatisfação íntima destas personagens, no seu olhar cansado ou contido, e descobre-se uma ânsia escondida sob o seu temor do imprevisível: apesar de aparentemente felizes com sua vida doméstica confortável, Ana e Catarina desejam redescobrir sua alegria, sua desordem íntima, a beleza e a feiúra do mundo sujo, viscoso e periclitante. É assim que, depois do desvio de curso provocado pelo encontro com o cego-abjeto, Ana volta ao lar com outra visão das coisas, lembrando-se de como “sempre fora fascinada pelas ostras, com aquele vago sentimento de asco que a aproximação da verdade lhe provocava, avisando-a.” A imagem da ostra remete ao ovo, à gema e à goma viscosa mascada pelo cego, bem como à sua saliva ou aos grotescos globos oculares do cego: faz pensar na matéria mole e viva, na verdade escondida que existe sob a crosta do cotidiano banal:

“Não havia como fugir. Os dias que ela forjara haviam-se rompido na crosta e a água escapava. Estava diante da ostra”............. “seu coração se enchera com a pior vontade de viver” ... “a piedade sondara no seu coração as águas mais profundas”

A ostra, o ovo e a saliva ressurgem em Água Viva:

“... quero, dentro desta noite, vida crua e sangrenta e cheia de saliva.”
“A transcendência dentro de mim é o it vivo e mole e tem o pensamento que uma ostra tem. Será que a ostra quando arrancada de sua raiz sente ansiedade? Fica inquieta na sua vida sem olhos. Eu costumava pingar limão em cima da ostra viva e via com horror e fascínio ela contorcer-se toda. E eu estava comendo o it vivo. O it vivo é Deus.”
“It é mole e é ostra e é placenta”.
“O instante é o vasto ovo de vísceras mornas.”
“O âmago é it mole e vivo, perecível, periclitante.”

Estas imagens provocativas ligam-se a outras que emergem aqui e acolá no espaço textual, tentando fazer vazar a viscosidade, a seiva ou a geléia trêmula e viva que existe sob a casca do ser endurecido pela rotina diária que o insensibiliza, seja este personagem ou leitor das ficções clariceanas.
A ostra sem olhos lembra ainda o cego, que não via, ou a própria personagem de “Amor”, que inquietava-se ao lembrar de suas raízes negras e profundas. Clarice Lispector também compara a ostra viscosa à placenta viva, ou à própria substância vital, que é Deus. Podemos estabelecer relações entre estas e outras imagens que ressurgem nos textos “Amor” e Água Viva: água, saliva, leite, lama, gema, geléia, placenta, seiva, suco das frutas maduras... Todas lembram coisas que remetem ao sangue, substância viva que circula pelos corpos orgânicos, objeto-abjeto que a linguagem tenta capturar. As próprias palavras formam uma rede de sentidos que tenta aprisionar a matéria viva que vaza, informe e palpitante, o texto que tenta tocar o intocável, dizer o indizível, encontrar o tudo e nada, a matéria-prima do ser .
Se a questão da automatização humana, da dobra entre o maquínico e o orgânico, dos riscos implícitos na robotização que objetifica o ser vivo pensante são temas já tocados em textos como “Amor” e “Os Laços de Família”, escritos na década de 50 e republicados nos anos 60, pode-se notar que estas preocupações de Clarice Lispector retornam com vigor em seus textos mais tardios, como o já citado Água Viva, e outros dos anos 70 ( por ex., A Hora da Estrela e Um Sopro de Vida (pulsações). Ana e Catarina são personagens que sugerem pessoas já tolhidas, em parte, pela rotina de gestos repetitivos de suas vidas ordenadas, e parecem funcionar, assim como seus maridos que trabalham fora, como peças de uma engrenagem – porém, ainda mais vivas e menos ressecadas do que as pessoas automáticas que aparecem em Água Viva (1973), imitando gestos padronizados e vazios de sentido, no fragmento em que a narradora relata um sonho:

Então sonhei uma coisa que vou tentar reproduzir. Trata-se de um filme a que eu assistia. Tinha um homem que imitava artista de cinema. E tudo o que esse homem fazia era por sua vez imitado por outros e outros. Qualquer gesto. E havia a propaganda de uma bebida chamada Zerbino. O homem pegava a garrafa de Zerbino e levava-a à boca. Então todos pegavam uma garrafa de Zerbino e levavam-na à boca. No meio o homem que imitava artista de cinema dizia: “este é um filme de propaganda de Zerbino e Zerbino na verdade não presta”. Mas não era o final. O homem retomava a bebida e bebia. E assim faziam todos: era fatal. Zerbino era uma instituição mais forte que o homem. As mulheres a esta altura pareciam aeromoças. As aeromoças são desidratadas – é preciso acrescentar-lhes ao pó bastante água para se tornarem leite . É um filme de pessoas automáticas que sabem aguda e gravemente que são automáticas e que não há escapatória. O Deus não é automático: para Ele cada instante é. Ele é it.

Nesta passagem do texto Água Viva, a automatização ou robotização humana, e a conseqüente perda de sentido dos gestos, pela sua repetição mecânica, aparece estreitamente ligada à questão da publicidade e do consumismo, da criação de imagens enganosas que oferecem alegrias e prazeres falsos àqueles seres que apenas imitam modelos, sem questioná-los. A imagem das aeromoças desidratadas e das pessoas automáticas expressa uma uniformidade estética de padrões consumistas que tende a massificar os seres civilizados, iludindo-os quanto à satisfação produzida pela imitação de gestos ou modelos e também pelo consumo de produtos que na verdade não prestam – como a bebida Zerbino. Neste caso, a escritura clariceana continua funcionando como antídoto ou veneno, instrumento capaz de evitar a petrificação dos seres humanos modernos, e de redespertá-los para a própria abjeção e animalidade, mas também para a doce náusea do amor, puro devir.


7. Transgressões

Tentando ultrapassar as fronteiras do real a partir da experiência com a linguagem, a ficção clariceana abre a brecha que permite vislumbrar a possibilidade de articulação de novas verdades sobre a realidade circundante. Seja em textos como “Amor” e “Os Laços de Família”, Paixão Segundo GH, Água Viva ou A Hora da Estrela, pode-se perceber, implicitamente, certas relações e convergências entre literatura e história, e descobrir os semitons políticos que permeiam sua obra, conforme observado por Solange Ribeiro de Oliveira, por ex., ao apontar correspondências possíveis entre a época de crise na sociedade brasileira, e a publicação de Paixão Segundo GH, no mesmo ano da Revolução de 1964, que “pôs fim a intensos movimentos reivindicatórios das classes desfavorecidas no Brasil”. Já Benjamin Abdala Jr. E Samira Youssef Campedelli afirmam que

se a sociedade brasileira se esbatia politicamente na força coercitiva do Estado e seus lugares-comuns tradicionalistas, a escritora lutava também contra estes estereótipos que se materializavam em linguagem. Era contra a palavra petrificada que ela lutava. Sua atitude, embora num plano de superfície não fosse política, correspondia, na verdade, a um modelo de comportamento que ultrapassava sua individualidade e, dessa forma, ligava-se a uma práxis social mais abrangente. Caminham igualmente juntas a aventura de enunciação, que procurava sua plenitude entrevista nas palavras, e a aventura da criação literária, ela também emparedada, a se estabelecer por sobre as brechas do sistema cultural estabelecido........ ...assim, por sobre a temática existencial, por sobre a procura simétrica de uma linguagem literária criativa, poderiam ser abstraídas atitudes sociais igualmente equivalentes.

Estes autores observam ainda que a própria Clarice Lispector tinha consciência das correspondências entre a série literária e as demais séries da práxis sócio-cultural brasileira, como se pode depreender do que ela disse na conferência “Literatura e Vanguarda no Brasil”, quando situou a politização na mesma atmosfera de vanguarda que envolve o escritor criativo:

O nosso crescimento íntimo está forçando as comportas e rebentará com as formas inúteis de ser ou de escrever. Estou chamando o nosso progressivo autoconhecimento de vanguarda. Estou chamando de vanguarda pensarmos a nossa língua. “Nossa língua.” ........ “Pensar a língua brasileira significa pensar sociologicamente, psicologicamente, filosoficamente, lingüisticamente sobre nós mesmos.


Simone R. da Costa Curi, por sua vez, detecta nas auto-citações clariceanas e na sua irreverência a respeito do ‘original’ uma instrumentalização da escritura, assim como na escolha, por parte da autora, do meio de difusão dos próprios textos: estes transitam entre os espaços de uma ‘escritura menor’ (revistas, colunas de ‘mulheres’ e até uma seção de conselhos de moda e etiqueta) ou aqueles consagrados pela crítica como dignos da literatura legítima (livro, ensaio acadêmico, artigo de jornal). Acontece, deste modo, um “trânsito ilícito, contrabando de fragmentos ou idéias, entre a coluna de vanidades e o cânone literário”. Simone Curi aponta ainda a postura ‘política’ de Clarice Lispector, que pode ser percebida a partir da tomada de distância e da adoção de práticas alternativas, pela escritora, em relação aos padrões hegemônicos que regiam a literatura de sua época: ela abandona a literatura para poder escrever. “Envolvida numa micropolítica efetuada no movimento, a escrita nomadiza os meios, a literatura, a cultura, o pensamento.”
Portanto, após estas considerações (e citações), podemos dizer que as experiências de Clarice Lispector com a linguagem literária, ao abrirem espaço para a busca de autoconhecimento, ao ultrapassarem as fronteiras de gênero e quebrarem certas convenções do mercado editorial, levam também o leitor a refletir sobre a própria condição. O leitor entra no texto, no mistério, atravessa o labirinto, procurando durante o percurso uma saída, um sentido, conforme observa Renato Cordeiro Gomes. As ficções clariceanas promovem, assim, a renovação de certas atitudes estereotipadas, e reativam sentidos enrijecidos, tolhidos ou regulados pelas regras sociais , como podemos perceber a partir da leitura dos textos “Amor” e “Os Laços de Família”, ou Paixão Segundo GH e Água Viva.
Lembre-se que estes contos foram publicados pela primeira vez antes dos anos 60 , enquanto que os textos seguintes apareceram em momentos críticos da história do país, numa época de ditadura e repressão. Renato Ortiz escreve que neste período “viceja uma cultura da depressão” , o que faz pensar nas idéias de Kristeva, que vê o “afeto depressivo como defesa contra a fragmentação” e afirma que a linguagem, através da criação literária, “exerce um efeito de ativação” . Para Kristeva, a experiência imaginária é um “testemunho do combate que o homem trava contra a depressão” . Isto pode ser entendido como uma defesa contra a idéia da morte natural, como nos mostra Blanchot – e também contra a morte simbólica do país naqueles anos de ditadura e censura. Estes textos que produzem “novas linguagens”, cheias de encadeamentos estranhos, poéticos”, tentando “recuperar a Coisa” , revelam a tendência clariceana de abrir clareiras a partir do potencial de sua escritura híbrida, transgressora, desviante e desejante, ao mostrar personagens que ultrapassam as fronteiras do seu mundo doméstico, indo além dos limites do cotidiano banal. Isto acontece de modo maduro em textos mais tardios, onde acentua-se a preocupação da autora com a linguagem e com o aprofundamento, muitas vezes penoso, da consciência do mundo.


8. Aprofundamentos, vôos, vertigens

Quando a personagem Ana, em “Amor”, volta para o espaço doméstico, após o desvio de rota que a fez transitar pelo Jardim Botânico, sente ainda a náusea doce e dolorosa diante da vida redescoberta. Na cozinha de casa, preparando o jantar, arrepia-se com a “vida silenciosa, lenta, insistente” que descobre pelos cantos: o mesmo “trabalho secreto” que acontecia no Jardim. Havia o horror da poeira ligando em fios a parte inferior do fogão, onde descobriu a pequena aranha, o horror da flor que se entregava lângüida às suas mãos, o horror da formiga esmagada perto da lata de lixo, o horror dos besouros inexpressivos de verão, os mosquitos rondando em torno de sua cabeça – como a haviam rodeado as abelhas com os seus zumbidos, naquela tarde extraordinária. Parece então reviver sua redescoberta, analisá-la, aprofundá-la por intermédio da memória, recriando a experiência que revelou o pior e o melhor de si – e, sentindo-se feliz ali perto de suas crianças que “cresciam admiravelmente” , ela prende o instante entre os dedos, como se fosse uma borboleta. Sente-se rejuvenescida, aceitando que “da flor saísse o mosquito, que as vitórias-régias boiassem no escuro do lago”.
A presença destes insetos lembra o instante em que Ana chega ao Jardim Botânico, sentindo-se num outro mundo, como se estivesse num meio-sonho, rodeada por abelhas e aves. Ou, depois, quando os enxames de insetos leves contrastam com a vida pesada do mundo e do jardim. Estes pequenos seres alados também aparecem no jardim de Água Viva, ou rodeando a cabeça de Rodrigo, “vespas feito anjos transparentes”, em A Hora da Estrela. Qual seria o papel mágico e secreto dos insetos, especialmente os alados, nestes textos de Clarice Lispector?... É possível pensar que eles ajudam as personagens a voar, que contribuem para que aconteça uma metamorfose, um mergulho em outra realidade, ou, se preferirmos, o aprofundamento da consciência do vazio e pleno de sentido, a vertigem da vida e da morte, a redescoberta da matéria trêmula e viscosa, do mundo perecível e periclitante.
Um estouro do fogão (outro choque maquínico-moderno, como a arrancada do bonde) interrompe o mergulho interior de Ana: ela corre para a cozinha e se depara com o marido que derramou o café: a imagem do líquido escuro (impuro) que escorre também sugere um vazamento, e o micro-acidente provoca uma momentânea perturbação. O homem estranha a expressão diferente no rosto da mulher e, parecendo cansado, com olheiras, abraça-a, depois segura sua mão, levando-a consigo, “afastando-a do perigo de viver”. Aconchegada nos braços do marido, ela ainda lembra, no entanto, que naquela tarde “alguma coisa tranqüila se rebentara”, sente que foi transformada pela saída do habitual, pela redescoberta do extraordinário existente sob a crosta do banal.


9. Bichos e objetos abjetos


As imagens recortadas dos textos de Clarice, como a do cego, dos ovos, da ostra ou dos bichos compõe uma série de “coisas” e objetos abjetos e perturbadores que aparecem para provocar os desvios de percurso das personagens humanas, revelando-lhes algo do mistério escondido sob a crosta de sua rotina habitual – como acontece com Ana, em “Amor”. Estes bichos, coisas ou pessoas que ressurgem às vezes reciclados, em textos diferentes, circulam pela escritura clariceana como objetos vivos e pulsantes, prontos a detonar explosões de sentido dentro e fora do texto, formando séries deslizantes e fazendo vazar a geléia viva através da experiência de risco da linguagem. Simone Curi escreve a respeito das séries nômades de bichos e objetos que perfilam-se nos espaço textual clariceano:
Vão desde um corpo muito frágil – uma esperança que irrompe no umbral da ordem doméstica – cruzando por tantos outros. Brutos ou primitivos, corpos instauradores de um olhar em si: um búfalo, uma barata. Domésticos e silvestres, cavalos, cães, galinhas, macacos, ratos, sem diferenciação de espécies ou reinos invadem os textos, fazendo-se confundir suas naturezas com as das personagens.

Também nos objetos uma linha de contornos se define na perspectiva do olhar, dando-se a localizar séries já prefiguradas no horizonte dos títulos, como lustre, cidade, maçã, livro, estrela. Coisas coexistentes no mundo das aparências: peças, artefatos ou máquinas criadas para um fim. Utilitários com nomes próprios, objetos que designam como palavras.


Bichos e objetos deslocam-se e provocam deslocamentos, viagens interiores. Se o ovo ou a ostra, viscosos, permitem a redescoberta da “desordem íntima” escondida dentro da casca, concha ou casulo, no caso das máquinas, como o bonde, o táxi, o trem ou o elevador, pode-se dizer que o movimento exterior propiciado por estes meios de transporte também acaba conduzindo as personagens de “Amor” e “Os Laços de Família” a uma espécie de viagem, de redescoberta íntima e vital. Podemos ver as coisas e máquinas, ironicamente, como intermediárias na tomada de consciência do conteúdo reprimido, assimétrico, animal ou disforme que lateja sob a crosta do cotidiano banal e domesticado. Os acidentes imprevistos, aparentemente comuns e ordinários, que acontecem quando Ana vê o cego, o bonde arranca e ela cai, derrubando os ovos, ou quando Catarina encontra o corpo da mãe e deixa cair as malas, por causa da freada do táxi, transmutam-se no texto clariceano em acontecimentos singulares que conduzem as personagens a redescobertas importantes, despertando reflexões sobre o próprio processo de civilização e automatização humana. O bonde, o carro, o trem – máquinas que lembram o movimento veloz do mundo moderno – movem-se num ritmo mecânico e acelerado que se distingue do ritmo lento e orgânico redescoberto por Ana no Jardim Botânico, onde mergulha num quase-sonho, ouvindo o zumbido dos insetos.
Este ritmo orgânico, resgatado em muitos textos de Clarice Lispector, manifesta-se, por exemplo, pela evocação dos ruídos e movimentos dos insetos, diversos dos maquínicos, como nos textos “Amor” e Água Viva, onde o mergulho no espaço do jardim faz emergir lembranças de algo vital quase esquecido pelo ser humano moderno. De certo modo, o contato da personagem com os bichos desenterra fragmentos de memória de uma animalidade presente no humano, fragmentos que emergem nas entrelinhas como resíduos do mistério da coisa indizível e indomesticável. Em Paixão Segundo GH, a protagonista despe-se de sua máscara, deixa cair a própria casca, ao se deparar com a barata esmagada de olhos esbugalhados, podendo a redescoberta do reprimido e da animalidade abjeta também ocorrer no espaço doméstico, após o acontecimento que provoca a transformação nas protagonistas. O ritmo dos bichos, portanto, ajuda a provocar o mergulho ou a viagem interior, ao desencadear o ressurgimento de lembranças e sensações adormecidas, o que também funciona como uma arrancada.
Podemos concluir deste estudo, que a ficção fragmentária de Clarice Lispector possibilita o resgate de memórias e sentidos, por meio de suas imagens ambivalentes que potencializam o falso, desconstruindo, recompondo ou rearticulando verdades. A partir dos passeios pelos jardins da escritura clariceana, somos convidados a participar desta viagem periclitante e redescobrir que, se “o cotidiano tem a tragédia do tédio da repetição”, existe uma “escapatória”, pois “a grande realidade é fora de série, como um sonho nas entranhas do dia”.




Autora: Ana Luisa Kaminski



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Grupos Artforum Mundi Planet
& Artforum Brasil XXI
Ana Felix Garjan

Poetas e Artistas do Mundo:
http://poetaseartistasdomundo.arteblog.com.br

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5 comentários:

Analuka disse...

Olá, Aninha! Fico feliz com esta homenagem, exatamente no dia do meu aniver, e agradeço a honra de ocupar este espaço. É sempre um prazer compartilhar arte e vida, alegria e esperança, com outras almas amantes do bem. Peço, apenas, que faça a correção na grafia do meu nome, LUISA, que se escreve com "s" e não "z" , ok? Abraços alados azuis, com desejos de muita luz, cores e inspiração em teus dias.

Analuka disse...

Oi, de novo, amiga! Grata pela correção da grafia do nome, e, especialmente, pela homenagem tão bonita!... Que o nosso mundo tenha sempre lugar para a ARTE e o AMOR, em suas múltiplas formas e matizes, é o meu maior desejo!... Beijos alados e pintados.

VIDA EM POEMAS disse...

Bom dia Ana, como tenho certeza que nada acontece por acaso aqui estou rs, bom amiga o que dizer...fico imensamente feliz em estar ocupando juntamente com tantas outras mulheres talentosas ao extremo, sem contar a grande Clarice Lispector que, como sempre falo a meu ver é um exemplo a ser seguido em termos literários)O blog está simplesmente divino (quanta riqueza de obras e poesia) fiquei encantada Ana.
Mais uma vez agradecendo teu carinho deixo com você todo meu agradecimento e desejos de que tudo venha contribuir com sucesso pela paz no mundo...

todo amor do mundo seja dado a vc amiga querida
Paz e Luz
beijos ternos na alma

Analuka disse...

Beijos alados, e minha gratidão, caríssima amiga Ana Felix Garjan!

Grupos Artforum Brasil UNIFUTURO disse...

Brasil, 04/08/2010

Caríssima Ana Luisa Kaminski,

O tempo conta, o tempo encanta! São passados dois anos do início desse belo projeto Academia de Artes e Poéticas "Clarice Lispector", um sonho que aos poucos vamos realizando com muito zelo e cuidado, em homenagem maior à pensadora e escritora brasileira Clarice Lispector. A presença de mulheres intelectuais, como você, que aqui estão relacionadas, é muito importante, para darmos para darmos continuidade aos trabalhos virtuais, e posteriormente reais, em homenagem a Clarice Lispector e à cultura brasileira.

Em meu ponto de vista, aqui está nascendo uma futura academia de filosofia, letras e artes onde estarão reunidas pessoas com seus projetos multicultutais que poderão vir a organizar um núcleo de referências sobre a literatura brasileira e internacional.

Esse sonho já foi iniciado, e em breve, estaremos organizando o Centro Cultural “Clarice Lispector” - uma etapa mais avançada para nossos objetivos relacionados à Universidade Planetária do Futuro.


Sua presença é importante!

Abraços,
Ana Felix Garjan

Mirabilis

Mirabilis
Artforum Brasil XXI

Academia de Artes e Poéticas "Clarice Lispector"

Planeta, maio de 2008 -Academia de Artes e Poéticas "Clarice Lispector" - "Um espaço não vazio"....

A Academia de Artes e Poéticas "Clarice Lispector", é especial homenagem à escritora Clarice Lispector, nascida em 1920 e falecida em 1977. A literatura brasileira começou a viver uma revolução chamada Clarice Lispector, em sua época. Uma revolução que começou com o seu romance "Perto do Coração Selvagem", e que até hoje respira a alma de Clarice, que por sua vez inspira milhares de pessoas.

Estamos a exatos 12 anos do centenário de nascimento de Clarice e sua poética literária, que continua considerada como única em seu tempo (começo do século XX, quando com apenas 20 anos já manifestava suas posições e militância intelectual a favor da liberdade, dos direitos humanos, e contra a sociedade machista da época.

A obra literária de Clarice Lispector continua inspirando os estudos e teses sobre a alma humana, pois ela escrevia o que sentia, numa literatura existencial, numa prosa poética e urbana cheia de sentimentos intensos.

Clarice nasceu em plena fuga, na Ucrânia. Seus pais eram judeus e fugiam da perseguição religiosa da Rússia. Ela chegou com seus pais ao Brasil aos dois anos. Naturalizou-se brasileira e, com sua inquietude e angústia, transformou a literatura nacional para sempre.

Academia de Artes e Poéticas Clarice Lispector

Academia de Artes e Poéticas Clarice Lispector
Este espaço é a Primeira Academia Virtual em homenagem à pensadora, escritora e poeta que muito contribuiu com a história da literatura brasileira. Este espaço foi iniciado em maio de 2008, para homenagear a memória da escritora Clarice Lispector, bem como de outros autores e metres da literatura brasileira e internacional.

Este espaço cultural, poético e literário foi aberto em maio de 2008, como proposta apresentada no Fórum Internacional de Mulheres do Futuro pela Paz do Planeta.

Brasil, maio de 2008
Grupos ArtForum Brasil XXI
Projeto Universidade Planetária do Futuro
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Fórum Internacional de Mulheres do Futuro pela Paz.

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"Vamos Salvar A terra"
Vídeo by Ana Garjan & Luuh Designer

http://br.youtube.com/watch?v=lxAAWGKJpFU